Promessas Ditas com a Alma Tremendo

Promessas Ditas com a Alma Tremendo




Seis anos se passaram desde que nos conhecemos e começamos a namorar. E, ao longo desse tempo, eu e seu pai atravessamos muitas fases — algumas leves, outras turbulentas, mas todas marcantes à sua maneira. Entre essas memórias, uma em especial sempre volta à minha mente com um brilho próprio: o dia do nosso casamento.

Eu tinha 26 anos quando me casei com ele. Lembro com nitidez da sensação de estar ali, na entrada da igreja, rodeada por flores cuidadosamente escolhidas, luzes suaves, e o som tímido do coral preenchendo o ar. O tapete vermelho carmesim se estendia à minha frente como um caminho simbólico entre o que eu era e o que estava prestes a me tornar. Cada passo parecia pesar mais que o anterior, não por insegurança, mas pela avalanche de emoção que me atravessava.

E ali estava ele — seu pai — me esperando no altar com aquele olhar que misturava admiração e nervosismo. Havia tanta gente ao redor: meus pais, tios, primos, amigos. Todos observando. E, mesmo assim, naquele instante, parecia que só existia nós dois naquele lugar.

Eu tremia. De verdade. Não só por nervosismo, mas por compreender, no fundo, o quanto aquele momento carregava de significado. Talvez um dia você se case e entenda exatamente o que estou dizendo... ou talvez nem precise passar por isso para compreender o frio na barriga que esse tipo de passo provoca.

Mas fique tranquila, hah, sua mãe aguentou firme. Subi até o altar sem desmaiar, com o coração disparado e o rosto corado de vergonha, segurando um buquê que parecia mais pesado do que realmente era. Sorri, claro, mas era aquele sorriso meio torto, o tipo que tenta esconder o quanto estamos tentando controlar o caos interno. Por dentro, eu podia jurar que ia ter um treco ali mesmo — mas sobrevivi.

Como vocês jovens diriam hoje: “quase morri, mas passo bem.”

Depois disso, éramos oficialmente marido e mulher. Começava então a verdadeira fase da vida a dois — o amor cotidiano, aquele que exige mais do que paixão: exige paciência, planejamento, renúncia e parceria.

Mas, filha... um dos desafios que enfrentamos juntos não foi exatamente construir, e sim reconstruir. Recomeçar certas coisas.

Compramos uma casa só nossa. Tínhamos que lidar com a adaptação à nova vizinhança, às rotinas divididas, aos horários apertados, às contas, às responsabilidades que não nos davam folga. E apesar de tudo isso exigir bastante da gente, a gente seguia firme, ou pelo menos tentava.

Porém.. Já ouviu aquele ditado que diz que tudo o que está no topo um dia pode cair? Pois bem, foi mais ou menos isso que aconteceu com a empresa onde trabalhávamos. A mesma onde eu e seu pai nos conhecemos, crescemos e criamos raízes.

No ano seguinte, do nada, tudo começou a desmoronar. As ações despencaram sem aviso prévio, instaurando uma crise interna devastadora. A diretoria, em uma tentativa desesperada de contenção, iniciou um processo agressivo de corte de custos — o que se traduziu em uma onda de demissões em massa. E sim, nós dois estávamos nessa leva.

Fomos demitidos.

Receber aquela notícia foi como tomar um coice seco no meio do peito. Não era apenas sobre perder um emprego. Era sobre perder um espaço onde investimos anos da nossa vida, onde crescemos juntos profissional e emocionalmente. Era ver uma parte do que construímos virar pó, de repente, sem qualquer controle.

Claro, me doeu. Doeu nele também. Mas seria desonesto da minha parte fingir que não entendi o motivo. A empresa estava em colapso, e aquelas decisões, por mais cruéis que fossem, faziam parte de uma tentativa de sobrevivência.

Porém, não entenda errado, uma coisa é compreender racionalmente. Outra bem diferente é lidar com o impacto emocional que isso traz.

Como eu já disse antes, a demissão nos abalou profundamente. Estávamos diante de um abismo invisível, tomados por um tipo de incerteza que não se explica com palavras, só se sente. Era como se uma presença silenciosa pairasse sobre nós, nos rodeando, sussurrando medos em nossos ouvidos, se alimentando da nossa ansiedade como uma entidade invisível, impiedosa, que se fortalece na fraqueza alheia.

Lembro de estar sentada no chão da sala, os olhos marejados, o rosto escondido entre as mãos, tentando conter um choro que escapava em soluços curtos. Seu pai se aproximou sem dizer nada no início — só me abraçou. Aquele tipo de abraço que não resolve nada no plano prático, mas diz, sem palavras, que a gente não está sozinha. Com uma das mãos, ele afagou meus cabelos com calma, e eu, entre lágrimas, repetia perguntas como se elas pudessem nos dar alguma direção: “E agora? O que vai ser da gente? O que vamos fazer?”

Foi então que ele segurou meu rosto com delicadeza e me fez encará-lo nos olhos. Havia uma firmeza tranquila no olhar dele, um tipo de serenidade que quase me incomodou por alguns segundos, como se ele estivesse deslocado daquela tempestade emocional que me engolia. Mas não. Ele estava presente. Muito presente. E me disse, com a voz firme, mas suave:

“Olha... eu sei. Tudo isso parece surreal, até pra mim. Mas você precisa ser forte agora. Nosso castelo caiu, sim. Mas a gente ainda tem as mãos. E enquanto tivermos força nelas, vamos reconstruí-lo. Juntos.”

Na hora, confesso: tive dificuldade de acreditar. Parte de mim achou que ele estava apenas tentando me consolar com palavras bonitas, frases prontas que, no fundo, não resolvem nada. Minha mente estava esgotada, tomada por uma neblina emocional. Eu não queria esperança, queria respostas.

E elas não vinham.

Mas, de novo, a emoção acabou vencendo a razão. Não por fragilidade, mas porque há momentos em que acreditar é a única saída possível. E, para minha surpresa, ele não ficou só nas palavras.

Foi tudo mais rápido do que eu imaginava.

Pouco tempo depois, conseguimos nos reerguer. Com trajetórias completamente diferentes, mas com o mesmo propósito. Eu optei por seguir um caminho que, de certa forma, também me atraía: a medicina. Fui atrás de formação complementar e comecei a atuar como ortopedista. Redescobri ali um propósito que tinha se perdido na correria do antigo emprego. Havia algo de profundamente humano naquele novo cotidiano — ajudar pessoas a se reerguerem fisicamente enquanto eu mesma aprendia a me reerguer emocionalmente.

Seu pai, por outro lado, escolheu um rumo mais simples, mas não menos digno. Começou a trabalhar como barman em um dos bares mais frequentados da cidade. E, honestamente, ele se saiu muito bem. Tinha carisma de sobra, sabia ouvir e conversar — qualidades que, naquele contexto, o tornavam quase uma figura terapêutica para quem cruzava seu balcão. Era bonito ver como ele encontrou um espaço para florescer mesmo longe dos antigos crachás e reuniões corporativas.

E assim, com esforço mútuo e paciência, as coisas começaram a entrar nos eixos. Tijolo por tijolo, fomos reconstruindo o que a vida havia derrubado. Nosso castelo desmoronou, mas não desapareceu. Porque o que realmente importa não são as paredes que caem, mas a disposição de colocá-las de pé novamente.

E isso a gente teve.


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